O que é a intolerância à lactose e por que acontece?
A lactose é o açúcar do leite. Para ser digerida, ela precisa de uma enzima chamada lactase, produzida no intestino delgado. Quando essa enzima está reduzida, a lactose não é bem digerida, fermenta no intestino e causa os sintomas característicos.
Existem formas diferentes:
- Primária: redução natural da lactase, que pode surgir ao longo da infância.
- Secundária: temporária, depois de uma infecção intestinal ou outra agressão à mucosa do intestino.
- Congênita: formas raras, presentes desde o nascimento.
A forma secundária é bastante comum na prática pediátrica. Depois de uma gastroenterite, a mucosa do intestino fica temporariamente machucada e produz menos lactase por algumas semanas. Nesses casos, os sintomas costumam melhorar sozinhos conforme o intestino se recupera. Não é preciso restrição definitiva na dieta.
Já a intolerância primária aparece de forma mais gradual e é incomum antes dos 2 ou 3 anos de idade. Ela pode ficar mais evidente ao longo da infância e da adolescência, conforme a produção de lactase diminui. Esse processo varia bastante entre as famílias.
Quais são os sintomas da intolerância à lactose?
- Distensão e estufamento da barriga após consumir leite ou derivados
- Gases em excesso
- Dor ou cólica abdominal
- Diarreia, geralmente ácida e com odor forte
- Barulhos intestinais audíveis
- Em alguns casos, náuseas
Os sintomas costumam aparecer de minutos a poucas horas depois do consumo de leite, iogurte ou outros produtos com lactose. A intensidade varia conforme a quantidade ingerida e o grau de redução da lactase.
Como é feito o teste e o tratamento da intolerância à lactose?
Existem algumas formas de investigar:
- Teste do hidrogênio expirado, que mede a fermentação da lactose não digerida
- Teste de tolerância à lactose, com dosagem de glicose no sangue após ingestão de lactose
- Prova terapêutica: retirada da lactose da dieta por um período, observando a melhora dos sintomas, seguida de reintrodução controlada
- Em situações específicas, pesquisa de substâncias redutoras nas fezes, mais usada em bebês menores
O gastropediatra escolhe o teste mais adequado conforme a idade da criança e o quadro clínico apresentado.
O tratamento é ajustar a quantidade de lactose ao que a criança tolera. Produtos sem lactose ajudam nessa adaptação. Na forma secundária, a restrição costuma ser temporária. O gastropediatra também orienta como manter cálcio suficiente na alimentação.
Qual a diferença para a APLV?
Intolerância à lactose e APLV (alergia à proteína do leite de vaca) são frequentemente confundidas, mas têm mecanismos diferentes. A intolerância à lactose é uma questão digestiva — falta ou redução da enzima que quebra o açúcar do leite. A APLV é uma reação do sistema imunológico às proteínas do leite, não ao açúcar.
Isso muda os sintomas esperados: a intolerância à lactose tende a causar gases, distensão e diarreia ácida, sem sangue nas fezes e sem manifestações na pele. Já a APLV pode cursar com sangue ou muco nas fezes, eczema e, às vezes, prejuízo no ganho de peso.
Também muda o manejo. Na intolerância, o problema é o açúcar do leite, e muitas crianças toleram bem queijos curados e iogurtes, que têm menos lactose. Na APLV, é a proteína que precisa ser evitada. Ela está em qualquer produto lácteo, independentemente do teor de lactose, inclusive nos produtos “sem lactose”.
Como os dois quadros podem parecer parecidos à primeira vista, a avaliação do gastropediatra é o caminho mais seguro para diferenciá-los. Isso também evita restrições desnecessárias na dieta da criança.
O que fazer em casa?
- Observar a relação entre os sintomas e o consumo de leite ou derivados
- Anotar quais alimentos pioram os sintomas e em qual quantidade
- Não cortar leite e derivados por muito tempo sem orientação. Isso pode reduzir o cálcio e outros nutrientes importantes
- Conversar com o gastropediatra antes de trocar para fórmulas ou leites especiais
Quais são os sinais de alerta? Quando procurar o gastropediatra?
Procure o gastropediatra se houver:
- Diarreia persistente ou muito frequente
- Sangue nas fezes (sugere outra causa, não intolerância à lactose)
- Perda de peso ou dificuldade para ganhar peso
- Dor abdominal intensa
- Distensão importante da barriga
- Sintomas que não melhoram com o ajuste na dieta
Esses sinais não são esperados na intolerância à lactose isolada e merecem avaliação para descartar outras causas, incluindo a APLV e outras condições do intestino.
Dra. Helen Osterne · Gastropediatra e Endoscopista Pediátrica · CRM-DF 19334 · RQE 19233
Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta médica.
